
sexta-feira, 20 de Agosto de 2010
Era Agosto e eu tinha um bilhete de comboio da C.P., em 2ª classe, só de ida, para Mafra, via Oeste, levantado gratuitamente na bilheteira da estação de Cruz da Pedra depois de mostrar o guia m/9 que deveria apresentar na Escola Prática de Infantaria de Mafra para a minha incorporação. Eu não queria ir para a tropa.
Anos antes, numa barbearia de Campo d`Ourique, onde moravam os meus avós, enquanto esperava cortar o cabelo, ouvi falar em tom grave de uns caixões com soldados que chegavam em barcos a Alcântara. Nessa altura eu queria muito ser jogador de futebol e do Benfica, estava convencido que sim, o meu avô tinha-o sido, e também vim a saber mais tarde que os jogadores do clube ficavam livres da tropa, de ir para a guerra em África.
Findo o sonho de ser jogador de futebol, e depois de ter frequentado um curso de educação pela arte, no conservatório nacional, começava a vislumbrar ter um rumo, uma ocupação para o futuro. Para mim era tão desagradável a perspectiva de cumprir serviço militar, que andara a negar a realidade que ele existia para jovens mancebos como eu e de distracção em distracção "esquecera-me" de pedir adiamento de incorporação.
Estava agora no cais do apeadeiro da Cruz da Pedra, acabado de chegar de Marrocos de férias à espera do comboio para Mafra; dentro de um saco castanho duas camisas lavadas e uma folha enrolada de papel selado, a minha declaração de objecção de consciência em que dois amigos testemunhavam que por motivos religiosos, filosóficos e morais me opunha à prática de actividades de índole militar. Um amigo de infância que estava a acabar o curso de medicina falara-me do estatuto, vi uma luz ao fundo do túnel, era uma decisão " pessoal e intransmissível " à família, não disse nada.
Estava na iminência de tomar a decisão entre declarar o estatuto ou ser incorporado, pensava que na primeira hipótese o que me podia acontecer mais chato era ficar a limpar as latrinas da caserna e ficar privado da companhia dos outros.
Parei no Cacém para apanhar outro comboio para me levar a Mafra, teria que aguardar algum tempo, era já perto da hora de almoço, deu para entrar numa livraria e comprar "A República " do Platão e a "Poesia Militante, 1º Volume " de José Gomes Ferreira , queria ir munido de algum "alimento espiritual " para o que desse e viesse. Depois entrei num café para comer alguma coisa. À minha frente na parede do café um cartaz do Totobola de início de época futebolística. Dizia MARQUE O GOLO DA SUA VIDA! E eu pensei cá para os meus botões que se conseguisse ver-me livre da tropa seria um grande golo na minha vida. Entregaria o estatuto.
Apanhei o comboio para Mafra, nele vinha um jovem como eu, peça fora daquele puzzle da incorporação, da tropa, da instrução militar…. A estação ou apeadeiro ferroviário que servia Mafra ficava a alguns quilómetros que tinham que ser transpostos numa camioneta de carreira, composta nesta altura por vários jovens prontos a serem incorporados. O pica-bilhetes enquanto percorria o corredor da camioneta entre solavancos perguntava o destino aos passageiros e sorria sarcástico" Ah ! Este também vai para a "Calhau! " sugerindo tratar-se de um sítio de vida dura. Para o "Calhau"? Que se referia ao Convento de Mafra, cuja forma arquitectónica imponente se assemelha a uma enorme pedra. Perto da vila comento com o meu companheiro ocasional de viagem que vou pedir o estatuto de objector, ele já tinha ouvido falado nisso mas não tratara…
"Já à porta da guerra", como diria Raul Solnado, entre jovens das várias incorporações para esse dia, vejo um pequeno grupo e acerco-me por me parecer ter ouvido falar de objecção de consciência e percebo que um deles diz que pedira o estatuto, que iriam analisar o pedido e que entretanto podia ir embora. Quero confirmar e pergunto-lhe.
Corredor de acesso à Escola Prática de Infantaria, aguardamos em fila, ladeados por peças de artilharia de museu. Avanço com a folha de papel selado azul 35 linhas vejo um militar mais experiente que procedia à recepção do novos incorporados e entrego-a. Aguardo uns momentos e depois pergunto-lhe "Quando é que confirmam?", "VÁ DE EMBUTE!" retorquiu-me.
Percorri o corredor em sentido inverso, muito rápido, com o meu saco castanho, com duas camisas e dois livros, saí e dirigi-me à frente do Convento a uma paragem de camionetas onde estava uma que dizia LISBOA e mal me sento ela arranca. A paisagem que vou vendo da janela no decorrer do percurso da camioneta, parece-me uma cortina a ser puxada sobre Mafra.
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