
Nas férias de Verão da minha infância lisboeta, a malta do Largo, à estrada de Benfica, , organizava uma brincadeira, quando se aproximava a Volta em Portugal em bicicleta. A base era, diremos nós agora, material de reutilização, as caricas. Cada um de nós tinha seis ou sete caricas, chegávamos a ser oito ou nove putos, e tínhamos que as manter, a cada piparote que lhes dávamos com os dedos, à superfície de um banco de pedra com cerca de um metro de altura e 12 m de perímetro, forma irregular fechada, mais ou menos quadrangular, que circundava um canteiro com uma arvore de médio porte no interior. A coisa era organizada, havia várias etapas, umas mais longas outras mais curtas ( quer dizer, menos ou mais voltas ao banco quadrangular), com calendário, às vezes uma etapa de manhã outra à tarde, com prémio da montanha , prémio Laranjina C e Metas Volantes, nas quatro curvas do perímetro do circuito. Imaginemos 60 caricas em competição... A primeira a cair, não voltava à pista e era classificada na etapa com 60, a outra a seguir com 59, a primeira a cortar a meta com 1. Registava-se tudo etapa a etapa, faziam -se os somatórios. Entretínhamo-nos. Com competição à mistura. Quando um de nós, dos mais habilidosos dava uma boa caricada e punha a sua à frente, ui !!! os outros não resistiam a comentários de atribuição causal do tipo " Tu tens é uma "g`anda latosa" ...!" ( referente a vaca leiteira; no "zodíaco" daqueles anos 60, era prognóstico de tipo claramente bafejado pela sorte ). As crianças são cruéis, lembro-me bem por isso que esse sortudo, que era o mais corpulento de nós e por isso justamente alcunhada por "Bomba" mais ternamente por "Bombita"numa caricada mais arriscada, desequilibrou-se para trás de mal sentado e só o vimos a fazer o pino que quase se matava. Enfim não foi nada de grave. Eu não tinha muito jeito, normalmente cabia-me a equipa do Tavira ou do Sangalhos, do meio da tabela. Mas estas "Voltas a Portugal" eram memoráveis.
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