
Já adolescentes comentávamos entre a malta, quando recordávamos no banco do jardim, a rir a bandeiras despregadas, as histórias das nossas vivências e brincadeiras de infância lisboeta, e das pessoas que conhecíamos, que alguém as devia escrever.
Encontrei recentemente necessidade de o fazer. O mais curioso é que depois disso encontrei numa pasta antiga um escrito que fiz com cerca de 18 anos sobre o mesmo tema, percebo-lhe a "ganga" ideológica com que o "vesti", mas oiço a minha voz...
Dedicado à malta
"futebol no largo"
Com efeito estávamos em plena dita, sem que nos apercebêssemos que o fim não tardaria muito.
E têm muita piada, que os miúdos do largo, eram à sua maneira, muito particular é certo, combatentes da repressão e mais do que isso, apercebiam-se nitidamente que algo ia mal.
Vejamos.
Estava-se em pleno êxtase futebolístico, com os miúdos a disputar uma renhida partida. Tudo se conjugava para que a partida continuasse competitiva, pois estava uma bela fim de tarde, as duas equipas estavam muito equilibradas e era a estreia oficial de uma bola que tinha sido adquirida através de uma colecta entre os miúdos.
Era a bola da malta. Muito cheia, de material plástico, saltava demasiado no empedrado do jardim, o que originou o desagravo quase total da miudagem.
------- Que grande barrete ! Essa bola não vale nada, salta muito --- disseram os mais tecnicistas, cuja particularidade da bola saltar em demasia não favorecia a sua habilidade.
-------Vamos é furar isso ! --- resolveram de imediato esses miúdos.
E assim se fez; um pequeno furo no pipo e aí está ela a desencher e a tornar-se numa bola "pau para toda a obra" que é o mesmo que dizer, que estava pronta para se adaptar às características do campo que tinha pequenas dimensões e chão empedrado.
Reunidas excelentes condições para o desafio estar a cumprir o esperado. Equilibradíssimo: 5 a 4, 7 a 6, 9 a 7, 10 a 9 … A cada golo, a correspondente euforia do marcador e seus comparsas .
As balizas eram sui-generis, pois uma era limitada pelo chafariz e por uma árvore, a outra ainda mais inédita era um banco de pedra a todo o comprimento e com meio metro de altura. Escusado será dizer, posto isto, que não havia dia em que se não discutisse se o remate "x" era golo ou não, se o remate "y" tinha batido no poste ou não, etc.
O público à força, não gozava com o desafio, pois estava habilitado a participar no jogo, mesmo sem querer; é que a rapaziada não se fazia rogada no capítulo do remate, os chutos eram fortes e das duas, uma, ou iam parar debaixo do eléctrico, camião ou outra viatura ou então paravam quando encontravam umas pernas ou umas caras pela frente … Quando isso sucedia, a rapaziada muito "bem comportada”, pedia desculpa, e recomeçava imediatamente.
Nesse dia, não se tinha acertado ainda em ninguém, ainda só eram 6 da tarde, mas o jogo que estava empatado teve o seu final mais cedo, forçadamente…
Dois agentes da autoridade, fazendo valer a sua capacidade repressiva, acercaram-se do jardim, fazendo cerco ao terreno de jogo. Embrenhadíssimos na partida, com as faces coradas do esforço, os olhos fixos nos caprichos da bola da malta, ninguém se apercebeu da presença indesejada dos "chapas".
E assim foi fácil, intercederem e cortarem o fio do jogo. Agarraram na bola e acto contínuo, os miúdos especaram, ainda não se apercebendo bem do que acontecera para logo de seguida se precipitarem em fuga, rapidíssima, automatizada, “enquanto o diabo esfrega um olho”, esgueirando-se para a "quinta", ou seja, o bairro da lata onde eles sabiam que a polícia não ia… Os polícias entretanto com a bola na mão atónitos assistiam impotentes ao desenrolar da fuga. Nada podiam fazer senão ameaçar:
---Isto só a tiro ! ---- disse um ligeiramente perturbado com uma taça de tinto que tinha bebido na tasca mais próxima.
----- Cambada de canalhas…se eu pego em algum … --- bradou o outro.
Nos bancos do jardim, as mamãs, as "vóvós", as "criaditas", podiam largar os seus rebentos pelo campo de futebol abandonado,
Já não havia perigo. O terror personificado nos "miúdos" dos 8 aos 18 anos tinha sido banido e reprimido pela autoridade.
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